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Published : 8 months ago (Sun, 05 Apr 2009 00:53:32 PDT) Searched: http://agthewall.livejournal.com/1007.html 0 links Related posts
Raios mornos de Sol lamberam a pele branca e descoberta, penetrando no ambiente através das frestas da persiana bege na janela. Seus olhos, sensibilizados pelo sono, abriram-se devagar, e ele encarou o teto ainda num estado letárgico, confuso. Onde estava? Ah, sim, em seu quarto. Lentamente, as memórias da noite anterior começaram a surgir em sua mente; recordou-se de entrar no carro de Brendon, e de ele o trazer para a cama ao chegarem, pois quase adormecera no banco do passageiro. Por isso estou assim, concluiu, olhando para o peito nu e a calça jeans que usava ao saírem, a camisa e o colete pendurados na cadeira da escrivaninha – o amigo, obviamente, não iria trocá-lo todo. Mas onde nós fomos, mesmo... ? Seu cérebro parecia querer bloquear a informação, e Ryan considerou seriamente a hipótese de ter bebido além da conta. O sentimento difuso que tomara conta de seu corpo – uma espécie de vazio latente, que chegava a doer – se encaixaria perfeitamente nessa situação, já que poderia ser uma simples ressaca; como nunca se embebedara, não sabia qual era a real sensação - mas considerando que a qual sentia era deveras desagradável, era plenamente condizente com sua suposição.
No entanto, a impressão de que se esquecera de algo muito importante manteve-se, forte. Sentou-se na cama, jogando o lençol (que até o momento, cobrira apenas suas pernas) para o lado; passou as mãos pelo rosto, suspirando profundamente, cansado. Afinal, onde fora na noite anterior, para estar tão acabado? Seus músculos estavam enrijecidos, resultado de algum esforço ou estresse fora do comum. De súbito, percebeu marcas estranhas, vermelhas, em toda a extensão de seu tórax; eram arredondadas, com bordas salientes, e – como ele rapidamente reparou, ao tocá-las – estavam inchadas.
- Mas que merd-
A primeira memória atingiu-lhe em cheio, deixando-o zonzo: o garoto desconhecido beijando-o, passando as mãos por sua pele, seguro do que fazia; agora que lembrava, podia quase sentir o sabor pungente do outro em seus lábios, adocicado, misturando-se ao gosto amargo de todas as manhãs. Pousou os dedos longos sobre a boca, como se querendo confirmar o que acontecera, e imediatamente retirou a mão, nervoso; seu coração palpitava a mil por hora, enquanto a simples recordação do toque fazia seu corpo inteiro tremer. Mas que droga, Ryan, eu vou ter que repetir que você não é gay quantas vezes até você se convencer? Abanou a cabeça, concordando com sua consciência – intimamente, querendo apenas esquecer toda aquela história - e respirou profunda e espaçadamente, até que o ritmo habitual de sua respiração se restabeleceu. Enfastiado, jogou-se novamente sobre o travesseiro, querendo permanecer o dia todo ali; se o seu aniversário fora uma confusão total, que seria dos dias normais? Três batidas altas na porta o tiraram de seus pensamentos, seguidas por uma voz feminina e autoritária.
- Ryan, levante-se! Senão vai se atrasar para a aula.
Ele suspirou, mergulhando o rosto na fronha branca, preguiçoso, ouvindo os chinelos dela baterem em direção à cozinha. Morava com a mãe desde que o pai morrera, dois anos atrás, e mesmo tendo completado vinte e um anos no dia anterior, ela continuava tratando-lhe como uma criança de sete anos. Na sua idade, já era lógico admitir-se que tinha maturidade suficiente para tomar conta de seus horários e atividades; ainda assim, a progenitora insistia em, todas as manhãs, vir lhe acordar cedo, como se ele não tivesse discernimento ou responsabilidade suficiente para julgar o que era ou não necessário. Entretanto, devia reconhecer que, não fosse ela tê-lo chamado alguns instantes atrás, teria provavelmente continuado na cama pelo resto da manhã – estava exausto. Virou as pernas para o outro lado, pousando os pés suavemente no tapete bordô, e esticou os longos braços para cima, abrindo a boca num bocejo largo; deixou a cabeça tombar para frente, num último momento de letargia antes de entrar definitivamente em sua rotina, e suspirou profundamente. O começo de um novo dia.
De qualquer forma, sua primeira aula era anatomia – uma matéria particularmente interessante, na sua opinião -, de modo que sua motivação se recompôs em poucos segundos, à medida que ele realmente acordava. Não tinha problemas de mau-humor ou indolência ao levantar, mas sua real dificuldade era justamente essa: levantar. Lembrava-se perfeitamente dos primeiros anos da universidade, quando chegava atrasado em praticamente todos os primeiros horários. Caso fosse um aluno normal, os professores com toda a certeza o teriam escolhido para Cristo; porém, devido ao fato de ter atingido as médias mais altas registradas de seu curso em muitos anos, eles simplesmente obliteraram seu descompasso temporal e limitavam-se lhe mandar olhares de aviso toda vez que chegava atrasado – prática a qual tornara-se menos comum com o tempo, uma vez que ele se acostumara em acordar cedo. “Mas também”, dizia-lhe Brendon às vezes, carrancudo, “alguém que faz medicina e tem notas tão assombrosas deve mesmo ser fora do normal.” Nessas horas, Ryan, simplesmente, ria.
Levantou-se, puxando o cós da calça para cima – ela havia descido durante o sono -, enquanto dirigia-se até a cadeira, para terminar de se vestir; tocou na camisa com a ponta dos dedos, com a intenção de puxá-la, mas no mesmo instante o perfume entorpecente do rapaz, impregnado em suas roupas, invadiu suas narinas, embriagando seus sentidos. Teve de sentar-se na beirada da cama, tamanha fora à tontura que lhe acometera, e mais uma vez as recordações da noite anterior se mostraram em sua mente, como se fossem esquetes de um filme mal-terminado. Passou as mãos pelas marcas inchadas no tórax, sôfrego, e olhou para a camisa branca, em dúvida. Respirou fundo, recobrando a força nas pernas, e abriu o armário pequeno de seu quarto com apenas um toque; dentro, um espelho comprido embutido na porta revelou um corpo alto e esguio, cuja derme clara fora maculada em diversos pontos, que se indicavam sem rodeios, avermelhados. No pescoço, uma marca particularmente profunda se cravara, e assim que a viu, não precisou mais pensar; jogou a camisa e o colete num canto da prateleira do móvel, retirando logo em seguida uma blusa de gola alta preta de uma das gavetas. Bastavam suas próprias preocupações com o acontecimento da noite anterior; não precisava de mais perguntas inconvenientes sobre como conseguira aqueles... machucados.
Recolheu sua mala, que estava jogada no canto do quarto, e colocou todos os livros e cadernos relacionados às disciplinas daquele dia dentro dela, de qualquer jeito, com urgência; se bem conhecia sua mãe, ela já devia estar infartando por tê-lo chamado há mais de cinco minutos e não ter obtido qualquer resposta satisfatória. Pendurou a bolsa no ombro, fraquejando momentaneamente sob o peso dos três livros de química orgânica, anatomia e toxicologia que carregava, e saiu do cômodo, apressado. Quando chegou à cozinha, ela acabara de despejar sobre seu prato um grande ovo frito, cuja gema, que se rompera na queda, inundara o prato num mar de amarelo; franziu a testa por alguns instantes, enquanto depositava sua mochila no chão, apoiando-a no pé da mesa. Sentou-se, o olhar ainda fixo no líquido viscoso, como se houvesse algo de muito errado ali.
- Mãe, não querendo ser chato, mas já te disse que gosto de gema dura no ovo, não? – ela, que estava de frente para o fogão, preparando a refeição para sua irmã, limitou-se a resmungar.
- Ah, Ryan, não consigo acertar toda a vez. Pare de ser tão impertinente, tenho certeza que o gosto continua o mesmo.
O menino deu de ombros, conformado; pegou uma fatia de pão de dentro do cesto que estava sobre a mesa e, com alguma dificuldade, colocou o ovo sobre ele, jogando a gema no sanduíche como se fosse algum tipo de molho. Estava ainda entretido nessa atividade quando ouviu o som de uma porta se batendo no interior da casa, estrondosa; nem ele nem sua genitora, porém, olharam para trás ou foram ver o que acontecera. Isso porque aquilo já se tornara um fato banal, rotineiro: Katherine acordava com um péssimo humor – aliás, ela sempre estava com um péssimo humor -, e bater a porta era apenas a primeira de suas muitas irritantes atitudes diárias. Percebeu a mãe aumentar o nível do fogo, mexendo a frigideira com habilidade; ao mesmo tempo, uma menina alta e um pouco acima do peso, de longos cabelos castanhos, adentrou no ambiente, sentando-se à mesa com um beiço fenomenal no rosto. Mais um bico que vai para o Guiness, pensou Ryan, divertido, dando uma mordida em seu pão. No instante seguinte, a senhora Ross depositava, sobre o prato da irmã, um ovo – com gema dura, consistência perfeita.
- Espero que esteja do seu agrado, filha; fiz a gema dura, como você gosta. – Ryan soergueu uma sobrancelha, incrédulo; realmente, não consegue, é? A mulher aproximou-se, atentando para a reação da garota; como ela nada fez, percebeu que o caminho estava seguro e abraçou-a pelos ombros, aplicando-lhe um beijo estalado na bochecha. – Bom-dia, querida.
- Ai, mãe, sai pra lá. – Kat livrou-se dos braços da progenitora e secou a bochecha com a manga do casaco, enojada. – Você sabe que odeio esses seus ataques de amor.
A senhora Ross sorriu, carinhosa, como se a filha houvesse dito que a amava incondicionalmente também - Ryan, às vezes, não podia evitar pensar que a mãe tinha algum parafuso a menos na cabeça.
- Mas é porque você é minha filha querida, Katy.
A menina lançou à mãe um olhar sério, de menosprezo, e a outra imediatamente entendeu que sua carga de carinho já fora o suficiente. Virou-se, voltando para o fogão com um sorriso – não era sempre que tinha a possibilidade de transmitir seu amor a Katherine -, ao passo que Ryan limitou-se a comer seu sanduíche, em silêncio, sem sequer levantar os olhos para a irmã. Tampouco fez ela algo a esse respeito; espetou uma salsicha no garfo e começou a roê-la, preguiçosa, a cabeça apoiada sobre uma das mãos, não demonstrando de forma alguma que estava ciente da presença do mais velho ali - na realidade, pareciam ignorar-se mutuamente. A senhora Ross, que estava ocupada cortando uma cenoura em rodelas, suspirou ao ver aquela cena – diga-se de passagem, realmente comum -, resoluta.
- Ryan, você vai levar sua irmã ao colégio hoje. – antes que qualquer um dos dois pudesse reclamar (e sim, eles estavam preparando-se para fazê-lo), ela acrescentou, impositiva. – E sem reclamações.
Apesar de inconformados, os dois terminaram a refeição calados, conscientes de que nada adiantaria argumentar: quando a progenitora fixava um pensamento em sua mente, era mais fácil acabar com o Efeito Estufa a fazê-la mudar de idéia. Dez minutos depois, partiram no carro prateado do garoto - ele dirigindo, ela sentada no banco do passageiro -, um clima desagradavelmente tenso dominando o ar no interior do veículo. Katherine estudava num colégio público a poucas quadras de casa, no ensino médio, e normalmente ia a pé com alguma amiga, ou mesmo sozinha; de vez em quando, porém, a mãe encrencava com o fato de os dois, apesar de irmãos, praticamente se odiarem – e nessas horas, o mais velho acabava sendo incumbido de levar Katy à escola, ao supermercado ou a qualquer lugar que desse a eles a oportunidade de conversarem um pouco. Não é preciso dizer que isso nunca funcionava.
- Queria que seu pai não tivesse sido tão bêbado. Daí, você não teria precisado vir morar conosco. – comentou ela, num tom de voz absolutamente indiferente, apesar da clara provocação contida em sua fala; Ryan, no entanto, não se rendeu àquela farpa, mantendo seu humor inalterado.
- Concordo plenamente, mas por motivos ainda anteriores. Se ele não tivesse bebido tanto, não teria sequer se casado com sua mãe, e eu não precisaria ser seu irmão. – ele também mostrava-se tranqüilo, um sorriso cítrico surgindo no canto de seus lábios; quem olhasse pelo vidro escuro do carro veria apenas duas pessoas tendo uma conversa, aparentemente agradável. Kat virou-se para ele, as sobrancelhas oblíquas sob testa franzida.
- Você não iria nem ter nascido, imbecil. – sem mover os olhos da pista, o garoto tirou a mão direita do volante e moveu o dedo indicador de um lado para o outro, em sinal negativo.
- Não, não. Não se lembra que eu nasci antes deles casarem? Você é o único produto do casamento.
- Ah, é verdade, você é quase um bastardo. – ela provavelmente pensava ter dito algo muito inteligente, pois abriu um largo sorriso em seu rosto redondo. – Mas mudando de assunto, por que colocou uma blusa de gola hoje, e não aquelas suas camisas e coletes bregas habituais? Se eu não te conhecesse, diria que se envolveu com alguma garota safada por aí e acabou todo marcado... – ele concentrou-se no semáforo à frente, tentando se controlar. Katherine descobrir o que ocorrera seria a pior coisa que poderia lhe acontecer. – Só que isso não é muito possível, porque não é do sei feitio ficar com esse tipo de menina.
Ryan focou o olhar no círculo verde que acabara de brilhar, pisando no pedal com vontade; o carro acelerou rápido demais, e ele foi forçado a pisar no freio para não bater no carro da frente, fazendo com que tanto ele como a irmã fossem empurrados para frente com violência. Ela gritou um palavrão alto, enquanto ao redor buzinas soavam, altas; o menino arregalou os olhos, respirando rápida e superficialmente, nervoso, e olhando para a garota com preocupação. Não que realmente se importasse com seu bem-estar; entretanto, seria expulso de casa se lhe causasse alguma complicação - e no momento, não tinha outro lugar onde ficar. Avançou o carro alguns metros, parando ao lado de uma quadra de calçadas bem ladrilhadas, e pousou a mão direita sobre o ombro de Katherine, suavemente.
- Você está bem? – seu tom de voz indicava uma inquietação quase indiferente, mas ainda assim, preocupada. A menina bateu em seu braço, afastando-o, uma expressão zangada estampada em sua face.
- O que deu em você, dirigindo como um bêbado! O carro é seu e você pode bater quando quiser; exploda-se, se essa for sua vontade, mas não me coloque no meio desse jogo suicida! – o irmão suspirou, cansado; era incrível como ela conseguia fazer tempestades até mesmo com o menor dos acontecimentos.
- Meu Deus, Katherine, foi só uma freada brusca. Você passou longe de morrer. – ela fuzilou-o com o olhar, contrariada; com toda a certeza, não estava acostumada com pessoas lhe criticando, e talvez fosse por isso que tivesse tantos conflitos com o rapaz. Não que o menino se importasse, de qualquer forma. Ela fez outro de seus bicos fenomenais durante uns poucos segundos, antes de virar-se para o irmão - dessa vez, com uma expressão maliciosa no rosto.
- Mas por que você ficou tão nervosinho, hein, “maninho”? – lançou um olhar à blusa preta do irmão, sorrindo. – O que tem debaixo dessa blusa? – começou a aproximar-se, mas o garoto a afastou com as mãos no mesmo instante, receoso.
- Ossos, carne, cartilagem, pele, enfim: só eu. Agora, faz favor, desça; já estamos na frente da sua escola. – ele apontou com o dedo pra a grande construção que havia além da calçada bem trabalhada, onde vários jovens já se reuniam; alguns chegavam mesmo a olhar para eles, curiosos (Katherine não era muito discreta). – Preciso ir para a faculdade.
- Mudando de assunto, huh? – seu sorriso modificou-se subitamente para uma feição mais séria. - Levanta a blusa, quero ver.
- Desculpe, incesto é crime, e mesmo se não fosse, eu não ficaria com você. – ela manteve o olhar fixo nele, intocada por seus estímulos - apesar deles, na maioria das vezes, causarem um efeito quase imediato. – Droga, sai logo do carro.
Ela não se mexeu. Ficaram imóveis durante um período que pareceu uma eternidade, observando-se atentamente, cada um esperando por um gesto, menor que fosse, do outro; Ryan, porém, foi surpreendido quando ela saltou sobre si, suas mãos tentando agarrar as bordas inferiores da blusa, na intenção de ver seu tórax. Impediu-a com algum esforço - seus movimentos eram limitados pelo cinto de segurança -, segurando seus pulsos com força na altura do rosto, raivoso; no entanto a irmã, perspicaz, esticou os dedos e puxou a gola da blusa para baixo, revelando a grande marca arredondada que se cravara em seu pescoço. Ela soltou um grito de satisfação, ao passo que o garoto soltou-a, derrotado.
- Eu sabia, eu sabia, eu sabia! – ela soltava gritinhos de alegria, sádica. – Mas que garota violenta, hein, “Ryanzinho”... foi uma noite de sexo selvagem, é? – o menino bufou, impaciente, e empurrou-a para o outro lado.
- Não houve nem garota, nem sexo. Agora, quer fazer o favor de sair logo desse carro, antes que eu esqueça que você é uma garota e te expulse eu mesmo. – ela sorriu, abrindo a porta com uma delicadeza quase etérea; estava nas nuvens.
- Ai, ai, ai. ‘Tá bom, estressadinho, já estou saindo. – Katy jogou a mochila nas costas e desembarcou, fechando a porta suavemente. Já dera alguns passos quando, de súbito, virou-se novamente. – Mas se não havia garota, quer dizer que foi um homem?
Ryan acelerou, cantando pneus ao sair, deixando-a sem resposta; Katherine sorriu, pensando que talvez fosse uma boa idéia agradecer à mãe pela idéia da carona, ao menos naquele dia. Descobrira coisas absolutamente fantásticas.
Ryan chegou à universidade dez minutos depois, a respiração ainda descompassada, tamanho era seu ódio. Apesar de envergonhado, não se importava que Brendon, Spencer ou Jon soubessem do que ocorrera - mesmo porque eram seus amigos, e compreenderiam perfeitamente que tudo o que acontecera não passara de uma mal-entendido indesejado. Porém, Kat nunca mexeria sequer um dedo na intenção de entendê-lo – na realidade, provavelmente faria o exato oposto -, e se ela viesse a descobrir que um homem o assediara (e um pouco além disso, também), já podia ver sua mãe arrumando suas malas e despachando-o de casa no mesmo segundo. Sempre pensara que era impossível a progenitora odiá-lo mais do que o fazia atualmente, mas percebeu que esse desgosto se elevaria à enésima potência se fosse homossexual. Não que eu seja gay, objetou a consciência, desesperada; mas a situação está contra mim, e obviamente a palavra da Katherine é mais forte que a minha nessas horas. Saiu do carro, enfastiado, jogando a pesada mala sobre os ombros com displicência; virou a chave, trancando as portas, e a contragosto, levantou os olhos para o campus. Nesse instante, entretanto, viu algo – ou alguém – capaz de elevar um pouco seu humor.
Um garoto alto e de olhos azuis estava parado a poucos metros dele, encostado num brilhante porsche preto; assim como ele, trazia uma bolsa a tiracolo – aparentemente, bastante carregada -, e ostentava um sorriso simpático nos lábios. Ao notar sua presença, Ryan imediatamente sentiu o estresse anuviar-se; aproximou-se do rapaz a passos largos, alcançando-o em pouquíssimo tempo – afinal, a distância que os separava não passava de uma vaga - e parou em frente a ele, o espaço entre os dois não ultrapassando um metro. O menino aumentou ainda mais o sorriso – se é que isso era possível – e passou os braços em volta do mais velho, abraçando-o forte; o outro, sorridente, fez o mesmo, apertando Spencer o máximo que podia. Divertia-se muito quando o velho amigo tinha aqueles súbitos ataques de carinho; conheciam-se há tanto tempo que às vezes esquecia-se disso, e apenas aqueles momentos de intimidade repentina eram capazes de fazê-lo tomar consciência de todos aqueles anos de amizade. Por mais que gostasse de Brendon e Jon, nunca seria capaz de abraçá-los como fazia com Spen; simplesmente, não havia proximidade suficiente.
O mais alto afastou-se um pouco, pousando as mãos sobre os ombros de Ryan e fitando-o, preocupado.
- Tudo bem com você, Ryan? – o mais baixo piscou, confuso, antes de acenar afirmativamente com a cabeça. – É que ontem, quando Brendon te levou para casa de repente, fiquei preocupado, achando que talvez pudesse ter acontecido alguma coisa ruim.
- Ah, não, quanto a isso... – passou a mão direita pelos cabelos, desviando o olhar para o lado. - ... apenas estresse. Toda aquela situação me deixou bem nervoso, e você sabe como eu costumo ficar nessas horas. – Spencer sorriu, concordando.
- É, sim, você geralmente começa a passar mal e tudo mais. Jura que não foi nada, já está bem? – Ryan confirmou, sorrindo, numa tentativa de tranqüilizar o amigo. – Ah, então me sinto aliviado. Você não vai conseguir imaginar o sentimento de culpa que me assolou quando tudo aconteceu, por ter concordado com aquela idéia maluca do Jon, mesmo sabendo que você não iria aceitá-la de maneira alguma. Não devia ter assentido em algo que eu sabia ser contra seus princípios, Ryan. Me perdoa? – o mais velho franziu a testa e ficou alguns segundos em silêncio, encarando o outro, sério, antes de piscar para ele, travesso.
- Claro que sim, Spen, sei que você não faria nada na intenção de me prejudicar - apesar disso ter acontecido, de certa forma. – o amigo baixou os olhos, sem-graça, ao passo que Ryan pousou a mão esquerda sobre seu ombro, apoiando-o. – Mas como já disse, não me ressinto. Agora, seria uma boa idéia se fossemos para nossas aulas, antes que um estudante de medicina e um de publicidade acabem sendo expulsos de suas respectivas salas por atraso, não? – o rapaz riu, concordando.
Atravessaram o longo estacionamento da Universidade de Nevada em poucos minutos, pois seus passos, já largos por natureza – as pernas de ambos eram absurdamente compridas – estavam mais rápidos que o normal pela escassez de tempo até o primeiro sinal. Passaram pelos primeiros prédios, de paredes lisas e brancas – que eram, na verdade, os dormitórios daqueles que preferiam morar no campus -, acenando para alguns conhecidos que passavam por eles, apressados; logo chegaram a amplas construções de tijolos à vista, todas com no mínimo três andares, as quais rodeavam uma larga praça circular com jardins cuidadosamente trabalhados. Nas portas de vidro que davam acesso aos edifícios, dezenas de anúncios e gravuras haviam sido afixados com fitas transparentes, quase cobrindo completamente a fachada de entrada. A área de humanas.
Ryan virou-se para o amigo, a mala apoiada nas costas.
- Brendon está trabalhando? - o companheiro assentiu com a cabeça.
- Sim, no Tropical Smoothie. – Spen franziu a testa, contrariado. - Eu disse a ele para parar de comer aqueles Wraps gordurosos e começar a estudar, para tentar uma bolsa na universidade, mas acho que ele está querendo mesmo engordar. – Ryan deu de ombros.
- Bom, ele sempre gostou desse trabalho, mesmo. – o amigo concordou, frustrado. – E Jon, foi para a gravadora?
- Aham. Ele disse que, agora que estão no processo de contratar uma banda nova, a gravadora está um caos... pessoas correndo por todo o lado e pilhas e pilhas de trabalho para fazer - tanto que ele estava bem preocupado com o horário ontem à noite, pois precisava acordar cedo. Apesar disso, não posso deixar de pensar que deve ser um emprego muito divertido.
- É, trabalhar com música deve ser demais, mesmo. – tanto ele quanto Spencer pararam e limitaram-se a fitar o céu, pensativos. – Mas acho que não é o tipo de emprego para nós, né? – o outro riu.
- Uhum. Não daria certo. – um apito alto soou nos alto-falantes do campus; os dois olharam para o poste de som mais próximo até o ruído parar, segundos depois. – Acho que preciso ir para a aula. E você também. – Ryan suspirou, consentindo, enquanto o mais alto virava-se para o prédio da direita.
- Ah, Spen. – o outro virou-se de novo, atendendo ao chamado do amigo, e mirou-o nos olhos, interrogativo. – É que eu briguei com a Kat hoje de manhã e pensei se... – Ryan baixou os olhos, envergonhado; já passara o tempo de fugir dos problemas – e ele bem sabia disso. - se não dava para...
- Ah, sem problemas. Vou falar para minha mãe preparar uma cama no meu quarto para você, Ry. – o mais novo sorriu, aliviado. – Uns cinco dias, por aí?
- É. Eu pensei em ficar na sua casa o resto da semana, se... se não for incomodar. - Spencer fez um sinal de positivo com a mão direita, sorrindo de canto a canto do rosto.
- Vai ser um prazer ter você lá em casa, monstro. Além do mais, como hoje ainda é terça-feira, você vai poder me ajudar a estudar. – a boca de Ryan franziu-se num bico contrariado, fazendo com que o amigo risse sonoramente. – Oras, favores têm que ter um preço, e convenhamos que esse é até bem barato. – ele olhou no relógio de pulso que trazia, divertido, e seus olhos arregalaram-se um pouco. – Olhe só, nossa conversa nos fez perder quase dez minutos... sinto que a professora vai me matar. Quando suas aulas acabarem à tarde, Ry, nos encontramos no estacionamento, sim? Vou te esperar. Até lá!
Ryan acenou, mas o gesto mal foi notado, pois o rapaz já saíra em disparada para o prédio à direita da praça onde estavam. Escondeu o rosto entre as mãos, cansado, expirando até que seus pulmões se esvaziassem por completo; em seguida, respirou tão profundamente quanto conseguiu, deixando que sua motivação crescesse junto com o movimento. Aula, aula, Ryan. Anatomia, vamos lá, é legal. Jogou os ombros para trás, ignorando seus pensamentos, e correu para o bloco de Medicina, alguns metros adiante; adentrou no corredor largo e ladrilhado da direita sem muita cerimônia, passando reto por várias e várias portas idênticas de madeira escura, até chegar a uma particularmente igual às outras, no final da passagem. Mordeu o lábio inferior, ainda ofegante, e seus dedos tocaram a maçaneta prateada, tímidos; por alguns instantes, a insegurança tomou conta de si, mas num ímpeto de coragem, ele virou o trinco e colocou o rosto para dentro da sala. O professor, que estava à frente da turma, virou-se, sério – mas ao perceber que era Ryan, limitou-se lhe fazer um gesto para acomodar-se. O garoto assentiu, sentando-se numa das carteiras da frente e tirando um grosso volume da mochila; o mestre observou-o por alguns segundos – assim como os colegas -, antes de retomar o raciocínio interrompido.
- ... e como eu ia dizendo, os músculos ...
Quatro horas se passaram; a aula de anatomia foi seguida pela de toxicologia – na opinião do rapaz, bem menos interessante –, e sem grandes sofrimentos, a manhã terminou. Ao soar da sineta, Ryan ergueu os braços para o teto, bocejando largamente, enquanto os colegas transbordavam como um rio furioso em direção à saída; massageou as têmporas, sentindo a cabeça latejar, feliz por ninguém estar prestando-lhe atenção - normalmente, os colegas vinham tirar dúvidas com ele, convidá-lo para fazer parte de clubes ou de grupos de estudo, entre outras coisas do estilo. Guardou o livro no interior da bolsa escura, preguiçoso, e fechou o zíper vagarosamente, os olhos perdidos em algum lugar bem distante dali. Sentiu uma mão tocar, de leve, seu ombro, e sobressaltou-se; virou-se para a pessoa que lhe chamara a atenção, e constatou – bastante surpreso – tratar-se do professor. Ele sorriu para seu aluno, cansado, sentando-se na cadeira ao seu lado.
- Ross, se não for lhe incomodar, gostaria de fazer-lhe uma pergunta.
Sua voz rouca e suave, que normalmente deixava Ryan num estado letárgico de sono, produziu um efeito totalmente contrário naquele momento; nervoso – nenhum professor nunca viera conversar com ele daquela forma -, o garoto consentiu discretamente, encabulado pelos olhos do homem estarem fixos em si. Ele, por sua vez, limitou-se a sorrir discretamente por baixo da barba branca cuidadosamente aparada – a qual disfarçava um pouco sua idade já avançada, dando-lhe a aparência de não mais que cinqüenta anos.
- Não se preocupe, jovem, não é nada grave... mesmo porque um aluno como você simplesmente não tem como ser fonte de críticas. – o rapaz não pode deixar de sorrir à bajulação; o professor, por sua vez, sorriu também, satisfeito pelo efeito que produzira. – Isso, relaxe. Quero apenas perguntar-lhe... – ele ajeitou os óculos sobre o nariz, empurrando-os com o indicador para um pouco acima de onde estavam. - ... está com algum problema?
Pego de surpresa, Ryan acenou negativamente com a cabeça, sem muita convicção. Sentiu as bochechas corarem, ao perceber que o olhar do homem ainda recaía sobre si, preocupado; aquilo era normal numa relação aluno e professor? Não se lembrava de Spencer contar histórias sobre tutores da faculdade preocupados com ele, ou de qualquer universitário ter vivenciado esse tipo de experiência. Decidiu arriscar.
- Por.. por que essa preocupação repentina, professor? Respondi errado a alguma de suas perguntas ou algo assim?
- Não, não, Ross, não é isso... – ele passou a mão pelos cabelos brancos, mas sem desviar os olhos do pupilo. – É apenas que... você não está normal, hoje. Ao menos, não está em seu estado normal: um tanto disperso, o olhar perdido na maior parte do tempo. Até mesmo seus colegas perceberam isso, tanto que saíram sem fazer-lhe questionamentos, não? – Ryan piscou, incrédulo. Os professores realmente reparavam naquele tipo de atitude dos alunos? – Você é um dos melhores alunos que essa faculdade já teve em muito, muito tempo, Ross, e não queria perder sua genialidade por algum problema banal de adolescentes. No entanto... – ele levantou-se, ajeitando o jaleco em seu corpo comprido. – se você diz que não há problemas, acredito em você. Só não deixe isso afetá-lo nos estudos, sim? – o professor foi até a mesa e recolheu sua pasta, já fechada, colocando-a sobre o braço. - Até semana que vem, Ross. Seja lá o que você tiver, melhoras.
O garoto assistiu ao professor deixar a sala em silêncio, sem saber exatamente como reagir. Estava certo de que se concentrara na aula - conseguia lembrar todas as explicações, até mesmo as palavras utilizadas pelo professor; no entanto, não podia deixar de admitir que o comportamento dos colegas era realmente uma prova de seu comportamento incomum, pois eles não hesitariam em vir conversar com ele numa situação cotidiana. Suspirou profundamente, jogando a cabeça para trás e soltando os braços ao lado do corpo, a mala em seu colo: o que estava acontecendo com ele? Você sabe muito bem o que está acontecendo, Ryan Ross. Ah, ali estava sua consciência, cutucando-lhe novamente. Será que nunca cansaria daquela brincadeira exaustiva? E o pior é que estava errada: ele não fazia a mínima idéia do que estava ocorrendo.
Resolveu ignorar os pensamentos inconvenientes que assolavam sua mente, sem dar-lhes chance para incomodá-lo. Levantou-se, saindo da sala e do prédio sem sequer olhar para os lados, tão rápido quanto podia; passou pelo prédio do refeitório, mas não parou nem mesmo para ler o menu – não estava com a mínima fome. Continuou andando reto até chegar aos jardins que ladeavam o estacionamento; viu seu carro e o de Spencer brilhando ao Sol do meio-dia, mas ainda era cedo demais para o amigo estar por ali - portanto, dirigiu-se para um imenso carvalho que havia na parte mais baixa dos jardins, os galhos absurdamente compridos projetando vários metros de sombra para todos os lados. Sentou-se sob ele, encostando as costas estreitas ao tronco grosso da árvore, sentindo sua pele adaptar-se às ranhuras características da casca; jogou a bolsa para o lado de qualquer jeito, voltando os olhos para cima. A copa da árvore era larga, e suas folhas verdes destacavam-se em meio ao azul quase cegante do céu de verão. Aquele ambiente foi envolvendo-o, e pela primeira vez no dia, a imagem do garoto lânguido da noite anterior foi esquecida em sua mente; ele sentia-se tranqüilo, vendo os galhos balançarem-se suavemente à brisa... azul e verde. Azul e Verde.
Azul e verde. A camisa azul e verde. Mãos tocando seus ombros com delicadeza. O rosto aproximando-se do seu vagarosamente, originando uma tensão quase concreta. Cochichando palavras suaves em seu ouvido. Bagunçando seus cabelos. Fazendo seu coração bater mais rápido...
- PARE COM ISSO!
Ao abrir os olhos de sopetão, percebeu que gritara a plenos pulmões. À sua frente, Spencer estava ajoelhado, os olhos arregalados pelo susto que tomara. Ryan respirava arfante, sentindo o suor frio em suas têmporas, o coração descompassado fazendo com que seu corpo precisasse de ar; ele encarou o amigo por alguns instantes, horrorizado, antes de abraçar-se a ele num total desespero. Passou os braços em volta da cintura do rapaz e mergulhou o rosto em sua camiseta, sentindo as lágrimas acumularem-se em seus olhos antes de começarem a jorrar em largos rios por sua face de feições infantis; chorava sem conseguir controlar-se, os soluços desprendendo-se altos de sua garganta, angustiados. O mesmo vazio latente da manhã tomou novamente conta de seu interior, provocando uma dor que não era física - mas ainda assim, chegava a ser insuportável. O outro, sem saber o que fazer, passou a mão carinhosamente entre os cabelos castanhos do mais velho, tentando acalmá-lo.
- Ryan, quer me contar o que acon-
Em meio aos soluços, o garoto interrompeu o amigo, sua voz trêmula não conseguindo pronunciar nada além de sussurros.
- Por favor, não pergunte, Spen. Nem eu mesmo sei.
Spencer assentiu, compreensivo, seus olhos azuis fixos no amigo e exibindo imensa preocupação. Sentou-se no chão, puxando-o mais para perto de si, e encostou a cabeça do mais baixo em seu peito, abraçando-o forte; Ryan manteve os braços em volta do rapaz, apertando-o ainda mais do que antes, mas o desespero já diminuindo em relação ao surto anterior. Gradativamente recuperou o autocontrole, e os olhos não demoraram a secar; quando sentiu que já podia falar novamente, secou o rosto com as mangas da blusa, afastando-se do outro com relutância. Spen mirou-o por alguns segundos, em silêncio.
- Bom, quer me dar as chaves do seu carro? Depois, vou até a lanchonete onde o Bren trabalho e peço para ele levar o carro até minha casa... aproveitamos, chamamos o Jon, e podemos até mesmo comer uma pizza. – passou a mão direita pelo rosto do amigo, apreensivo. – O que me importa é que você volte comigo para casa.
Ryan acenou afirmativamente, concordando com a idéia; sem palavra levantou-se, deixando que Smith levasse sua bolsa e andasse alguns passos atrás de si. Logo chegaram ao carro; o mais alto abriu as portas com o controle e o outro, num movimento quase mecânico, entrou no veículo, sentando-se cuidadosamente sobre o banco estofado em couro negro e prendendo o cinto automaticamente. Spencer deixou as malas dos dois no banco traseiro, sentando-se em frente ao volante em seguida; fixou o olhar no amigo por um momento, esperando alguma reação, mas o rapaz de olhos vermelhos não mexeu o rosto um milímetro sequer, de modo que, derrotado, o mais alto suspirou e deu a partida, manobrando o carro com perícia. Saíram do campus para a avenida mais movimentada de Las Vegas – e apesar de sê-lo, àquela hora do dia não passava de uma rua comum, apenas um pouco congestionada... era incrível o que alguns néons podiam fazer.
- Eu dormi mesmo a tarde toda, Spen? – Ryan interrompeu a viagem silenciosa para sanar a dúvida que subitamente aparecera em sua mente. Spencer deu de ombros, sem tirar os olhos da estrada.
- Não sei, Ry. Fato é que, quando te encontrei, estava dormindo... ou melhor, quase enfartando. Nunca vi alguém suar tão frio quanto você naquela hora, mesmo. Fiquei com medo. Spencer lançou-lhe um olhar significativo, que ele imediatamente entendeu como “por favor, não faça isso novamente”. Sorriu, agradecido pela preocupação – sem dúvida, era um poço delas para o amigo -, mas sem ter certeza se deveria contar o motivo de tudo aquilo para o rapaz. Sim, porque depois daquele sonho – ou melhor, daquelas memórias -, descobrira o que sua consciência quisera lhe dizer horas atrás. E, tinha que admitir, realmente soubera todo o tempo qual era a razão de tanto estresse, apenas não quisera admiti-la. Pois é, consciência... acho que agora você realmente vai ter que se esforçar para me convencer que eu não sou gay – pensou ele, extenuado - Porque eu gostei, sim. E muito.
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